Terminal

Blog de shisen :A arte ruim é mais tragicamente bonita que a boa arte, pois documenta o fracasso humano., Terminal

Me perguntam se sou louco, pouco, um tanto peculiar.
Se me pego distraído, aturdido, devagar.
Que devia pensar, sonhar, viver, deixar de imaginar.
Que o mundo é mais, demais, que devia deixar pra trás.
Mas a verdade é que penso, tenso, o quanto sou capaz.
Levo esse sentimento, e lamento, o tanto que ele faz.
Até para quem pensa, dispensa, me chama outra vez de louco,
Até para quem acha, despacha, minha sanidade aos poucos.
Até quando esqueço, não mereço, deixo de acreditar em mim.
Me pego pensando, sonhando, vivendo tudo, mesmo assim.
Aprendi que sou louco, não é pouco é simplesmente assim.
É aquilo que desperta nos outros, aos poucos, o extremo pavor.
É a doença, aquela, tão bela, que chamo de amor.

segunda 01 dezembro 2008 18:09


Para se ler não pensando em nada e se pensar em tudo

Os dias quentes trazem ares de um verão clandestino. Não faz parte do meu guarda-roupa preocupar-se com camisetas sem manga. Não faz parte usar bermuda, não usar casaco. Onde está o conforto dos dias frios pré-estabelecidos? A vida é assim (e as frases clichês também começam assim), gosta de ser imprevisível exatamente quando precisamos de uma certa na nossa existência. Das pessoas, já não espero nada. São as máscaras do "quero ser", camufladas nas vestes do "eu sou assim, eu juro". A sinceridade está na falta da hipocrisia, e só. Como se, não mentir, merecesse o mérito de satisfação como uma verdade singular. Singular como todos, como tudo. Alguém já lhe deu algum exemplo da sua própria vida quando fala da sua? Provavelmente sim. Eu chamaria de multimonólogo, como sempre. O que faz a pessoa pensar que, só porque você está confidenciando algo ímpar da sua vida particular, ela deve fazer o mesmo? Não se sente frustrado? Que faria você com tal informação? O problema, meu amigo (ou amiga, ou ninguém, ou apenas nada), é a falta de comunicação. Não! De novo isso? Porcaria, vou trocar de blog... Enfim, vou reformular. O problema é que a criatura não escuta mesmo. Quando falo "criatura", cito em um exemplo único todas as pessoas. Você, que está lendo (se está) isto, já se pegou nesta situação? Já interrompeu alguém pra falar de si? É justificável. A satisfação provém não de trocar informações sobre o assunto, mas do próprio ato da fala. Chama-se "desabafo". As pessoas falariam com as paredes, como uma vez já citei, caso achassem que elas pudessem ouvir. Saber que há um indivíduo capaz de ouvir, canalizar as informações e raciocinar faz-se a informação de importância tal que não precisa-se de mais nada. Sendo assim, o que impediria que a mesma pessoa fizesse o mesmo quando a outra está falando? Eu já deissti, pois tenho ódio de tal situação. A diferença, cara pessoa, está quando alguém realmente precisa falar algo. Não algo que sacie seu sentimento narcísico muitíssimo desenvolvido. Algo que emana de seus poros, que explodiria caso o espaço que preenchesse fosse meramente físico. Aí não queremos paredes ambulantes, falsos ouvintes. Queremos um tempo para nós. Será difícil? Focar sua atenção no outro, somente no outro, por quinze minutos, parece uma tortura desleal. Como eu disse, já desisti e outros farão o mesmo. Os de bom senso e ouvidos cansados, os com muito para falar e poucos para ouvir. Os dias estão mudando. Este verão fora de época me mata. É o inverno trocando de máscaras. Como as pessoas. Como aquelas que um dia não escutarão nada além de suas próprias palavras vazias.

quinta 04 setembro 2008 01:13


Nada de real

Blog de shisen :A arte ruim é mais tragicamente bonita que a boa arte, pois documenta o fracasso humano., Nada de real

- Em nada afeta a sua beleza. Digo mais, acrescenta um toque de real e humano.

- Não há nada de real e humano, são só defeitos.

- É o que te torna viva.

- O que me torna viva é aquilo que me mantém em pé.

- Seus pés?

- Metaforicamente, claro.

- Não há nada que possa te manter em pé mais do que as marcas de passagem pelo mundo.

- Não tão metaforicamente.

- Seu rosto ainda é delicado.

- Meu queixo é muito fino.

- Eu gosto, acho delicado. É tão próprio...

- É muito fino, muito arrogante. Se erguer a cabeça, empinar o nariz, falarão de mim por aí.

- Que falem.

- Não. Que não falem.

- Pois eu falo. Não deveria levar em conta só as críticas, mas sim os elogios.

- Eu não sei, sinto que não consigo aceitar elogios muito bem, enquanto as críticas me derrubam.

- Nada mais normal.

- Já não sou mais aquilo que esperava ser. Tenho defeitos.

- Em nada afeta a sua beleza. Digo mais, acrescenta um toque de real e humano.

- Não há nada de real e humano, são só defeitos.

- É o que te torna viva.

- O que me torna viva é aquilo que me mantém em pé.

- Seus pés?

- Metaforicamente, claro.

- Não há nada que possa te manter em pé mais do que as marcas de passagem pelo mundo.

- Não tão metaforicamente.

- Também não serei tão delicado.

- Pois é... Afinal, são só defeitos.

sábado 02 agosto 2008 02:20


Inconsciente urbano - A Série. parte I - Efêmeros

Blog de shisen :A arte ruim é mais tragicamente bonita que a boa arte, pois documenta o fracasso humano., Inconsciente urbano - A Série. parte I - Efêmeros

Era do caminhar sereno de Liv o constante ruído seco de um salto alto. Eram pretos os sapatos, o vestido, o cabelo. Fazia um tempo casual, brilhando o sol nos olhos parcialmente escondidos da garota, sobre óculos de tom escuro fosco. Pouco se preocupava com o brilho dos seus passos, dos seus olhos ou do dia. Bastava o brilho das lojas a sua volta, a luminescência de um despreocupado início de tarde. O vento no seu cabelo era cabível, na intensidade certa. As sacolas em suas mãos eram de grife, pretensiosamente alinhadas, quase em tons monocromáticos. Andava despojada de qualquer meticulosidade, pouco importando os carros a buzinar, as pessoas a trombar umas nas outras, ou os prédios claustrofobicamente juntos. Encontraria-se no café com ela mesma, não podendo encontrar companhia mais apropriada para o momento.

Em alternância com os passos distônicos da garota dos óculos foscos, um rapaz gesticulava ao falar no telefone. No carro, no trânsito, no possível estresse.

- Porra, Jan, porra. - Dizia, repetia.

O sinal tampouco reluxia. O rapaz preferiu estacionar, pousar o carro, o telefone agressivamente desligado e a paciência, provavelmente já longe dali. Ele afrouxava o colarinho do seu terno, esfregava sua testa e procurava consolo estético em futilidades de fragmentos de vidas que passavam apressadas. Passava uma senhora de chapéu, outra de sombrinha. Passou um garoto de patins, passou um menino e seu sorvete. Passava Liv, passava rápido. Não precisava passar tão depressa. Ele preferiu sair de seu carro e dar alguns passos em direção ao café. "Meliés", dizia a placa. "Anda logo", dizia sua cede.

Liv pedia um café e já não se sentia tão vazia. Determinara um destino para uma impulsão imedita. Era, de toda forma, um caminho a se seguir. Seus gestos demonstravam indiferença mesmo que seus pensamentos gritassem "decisão". Tomou uma decisão. "Capuccino", dizia mais para si do que para o atendente. Afirmava-se como dona da sua própria meta. Parecia ridículo. Parecia tão ela. Comparando momentos banais, procurando apenas não voltar para casa. Devia manter suas aparências por longas horas. Devia manter-se do outro lado da sua própria porta.

"Um expresso", dizia o rapaz, indeciso. Manteve sua afirmação. Sentou-se sem hesitar em uma mesa próxima da janela. Preferia manter sua atenção nas vidas alheias, passageiras. Impossibilitavam que prendessem sua atenção por tempo suficiente para se apegar. Era o que precisava. Caso o chamassem, não reconheceria seu nome. Não era mais Alex. Não mais. O vazio do seu próprio reconhecimento preenchia de paz o seu momento a sós. Ele e o café. Ele e as pessoas de vida breve. Ele e as situações efêmeras. Mais uma ligação e seria mais drástico. Jan tinha que esperar. Simplesmente tinha.

O capuccino desaparecia em porções pequenas da xícara de Liv. Alex bebia apressado. O casal entre eles esquecia do café, discutiam entre si. Alguém solitário bebia enquanto lia. Um garoto tomava milkshake, a garota ao seu lado nada bebia. Dois senhores soltavam risadas. Uma senhora esperava alguém, ansiosa. Um cachorro do lado de fora. Um vaso de flor decorativo. Um quadro, dois quadros, três quadros imitando monet. Um tiro. Um grito que se sobressaía dos outros. Um corpo imóvel no chão, com a arma apontada pra si. Um frenesi de olhos atentos. Um momento, apenas um momento.

terça 29 julho 2008 05:46


Pensamento transversal

Blog de shisen :A arte ruim é mais tragicamente bonita que a boa arte, pois documenta o fracasso humano., Pensamento transversal

O risco é transversal. O corte é transversal. Os olhos são paralelos. A roupa é amassada, cores chapadas. Os quadros são espalhados. O lápis não é só para escrever. O risco é transversal. O corte é sentimental. O motivo é obtuso. As janelas, fechadas, armadas de vento. Sopra o vento transversal. O ontem foi transvesal, como o risco e o corte. Foi do ontem que veio o risco. Foi do risco que veio o corte. A linha é transversal. As lágrimas são paralelas. Os tons pretos são chapados. O sangue é espalhado. O sentimento não é só para escrever. O risco é transversal. O corte, obtuso.

segunda 23 junho 2008 03:21


|

Abrir a barra
Fechar a barra

Precisa estar conectado para enviar uma mensagem para shisen

Precisa estar conectado para adicionar shisen para os seus amigos

 
Criar um blog