Era do caminhar sereno de Liv o constante ruído seco de
um salto alto. Eram pretos os sapatos, o vestido, o cabelo. Fazia
um tempo casual, brilhando o sol nos olhos parcialmente escondidos
da garota, sobre óculos de tom escuro fosco. Pouco se
preocupava com o brilho dos seus passos, dos seus olhos ou do dia.
Bastava o brilho das lojas a sua volta, a luminescência de um
despreocupado início de tarde. O vento no seu cabelo era
cabível, na intensidade certa. As sacolas em suas
mãos eram de grife, pretensiosamente alinhadas, quase em
tons monocromáticos. Andava despojada de qualquer
meticulosidade, pouco importando os carros a buzinar, as pessoas a
trombar umas nas outras, ou os prédios claustrofobicamente
juntos. Encontraria-se no café com ela mesma, não
podendo encontrar companhia mais apropriada para o momento.
Em alternância com os passos distônicos da garota
dos óculos foscos, um rapaz gesticulava ao falar no
telefone. No carro, no trânsito, no possível
estresse.
- Porra, Jan, porra. - Dizia, repetia.
O sinal tampouco reluxia. O rapaz preferiu estacionar, pousar o
carro, o telefone agressivamente desligado e a paciência,
provavelmente já longe dali. Ele afrouxava o colarinho do
seu terno, esfregava sua testa e procurava consolo estético
em futilidades de fragmentos de vidas que passavam apressadas.
Passava uma senhora de chapéu, outra de sombrinha. Passou um
garoto de patins, passou um menino e seu sorvete. Passava Liv,
passava rápido. Não precisava passar tão
depressa. Ele preferiu sair de seu carro e dar alguns passos em
direção ao café. "Meliés", dizia a
placa. "Anda logo", dizia sua cede.
Liv pedia um café e já não se sentia
tão vazia. Determinara um destino para uma impulsão
imedita. Era, de toda forma, um caminho a se seguir. Seus gestos
demonstravam indiferença mesmo que seus pensamentos
gritassem "decisão". Tomou uma decisão. "Capuccino",
dizia mais para si do que para o atendente. Afirmava-se como dona
da sua própria meta. Parecia ridículo. Parecia
tão ela. Comparando momentos banais, procurando apenas
não voltar para casa. Devia manter suas aparências por
longas horas. Devia manter-se do outro lado da sua própria
porta.
"Um expresso", dizia o rapaz, indeciso. Manteve sua
afirmação. Sentou-se sem hesitar em uma mesa
próxima da janela. Preferia manter sua atenção
nas vidas alheias, passageiras. Impossibilitavam que prendessem sua
atenção por tempo suficiente para se apegar. Era o
que precisava. Caso o chamassem, não reconheceria seu nome.
Não era mais Alex. Não mais. O vazio do seu
próprio reconhecimento preenchia de paz o seu momento a
sós. Ele e o café. Ele e as pessoas de vida breve.
Ele e as situações efêmeras. Mais uma
ligação e seria mais drástico. Jan tinha que
esperar. Simplesmente tinha.
O capuccino desaparecia em porções pequenas da
xícara de Liv. Alex bebia apressado. O casal entre eles
esquecia do café, discutiam entre si. Alguém
solitário bebia enquanto lia. Um garoto tomava milkshake, a
garota ao seu lado nada bebia. Dois senhores soltavam risadas. Uma
senhora esperava alguém, ansiosa. Um cachorro do lado de
fora. Um vaso de flor decorativo. Um quadro, dois quadros,
três quadros imitando monet. Um tiro. Um grito que se
sobressaía dos outros. Um corpo imóvel no
chão, com a arma apontada pra si. Um frenesi de olhos
atentos. Um momento, apenas um momento.